segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

MÁRIO JORGE: O maior poeta contemporâneo sergipano.

Por: Allan de Oliveira.
Contato: allantbo@hotmail.com

Fonte da foto: https://www.facebook.com/MarioJorgePoesiaQueLiberta/posts/546203135440340.

Biografia

Mário Jorge de Menezes Vieira nasceu em Aracaju/SE em 23 de novembro de 1946, falecendo na mesma cidade num acidente automobilístico em janeiro de 1973. Começou o Curso de Direito na Faculdade de Direito de Sergipe (hoje UFS) em 1966 e, posteriormente, mudou-se para São Paulo para cursar nessa metrópole o Curso de Ciências Sociais, mas sem conseguir concluir o curso. Foi militante do movimento estudantil na década de 60, durante o período da Ditadura Militar no Brasil, sendo preso em 1968 e respondendo a alguns processos por causa das suas atividades consideradas como subversivas perante o governo da época, e absolvido em 1972.

No ano de 1968, Mário Jorge publicou o seu primeiro e único livro em vida, Revolição (em formato de envelope). Além desse livro, o poeta também publicou poemas e artigos em jornais e revistas de Sergipe, sendo editor de um jornal chamado Toke, envolvendo-se na produção de alguns filmes, participação em alguns festivais de músicas, e colaboração em peças de teatro.

Quanto à produção literária de Mário Jorge, nota-se a influência das Poesias de Vanguarda, destacando-se mais a poesia concretista, práxis, social e marginal, e também influências da Tropicália.

O contexto dos seus poemas retrata temas semelhantes aos do Futurismo, com tons líricos, agressivos, experimentais, passando ideias, que sem dúvida, são radicais para quem os lê. Com um caráter de denúncia social como os problemas durante o Regime Militar no Brasil e a influência de protestos Hippies como os do período da Guerra do Vietnã.

OBRAS¹

Revolição (1968)

* Poemas de Mário Jorge (1982) [Obra póstuma];

* Silêncios Soltos (1993) [Obra póstuma];

* Cuidado, Silêncios Soltos (1993) [Obra póstuma];

* De Repente, há Urgência (1997) [Obra póstuma];

 * A noite que nos habita (2003) [Obra póstuma];

* Revolição (2013) [Obra póstuma];

* Poemas de Mário Jorge (2013) [Obra póstuma].


PAISAGEM URBANA

A
PALAVRA
FOTO(GRÁFICA)MENTE
CONSUMIDA


ANUN Cia.

a
V E N
D I
D
A

NATAL

        a missa       a cena
        o míssil       o sino
        a massa      o hino

        o sonho

        a lenha da fome
        a senha do nome

                            do Homem e do segredo
                            do Homem e do degredo
                            do Homem


CÂNTICO FRUSTRADO

Viver
para que?
Se os desonestos têm a vitória.
Enquanto os sérios, só as vezes
Vem de longe, um pouco de glória.

Viver
como?
O mau sempre pisando
Sem dó, o bom, o são.
Felizes as plantas, que vivem vegetando
Felizes elas que não tem coração.

Viver?
Aonde?
Se em todo lugar nesta terra
Tudo fede, é podridão,
nos cerca a maldade, a merda
Se todos são servos da ambição.


PEDRADA

em tempo de dura andança
(povoado de inimigos
armados de ilusões)

é pedra a flor na estrada
(cercada de cemitérios
onde cruzes são cifrões)

é pedra feita palavra
(quase sempre sepultura
do trabalho apodrecido)

palavra filha do gesto
(para os velhos: indigesto)

leve e puro do menino
(flor sa(n)grando rebeldia:
clara semente da aurora)

quebrando o negro cristal
(estrela velha, caída
na noite da mais-valia)

estilhaçando a vidraça
(redoma, muro, prisão:
precipício solidão)

em tempo de dura andança
(a liberdade germina
no seio de falsos natais)

a pedra, a flor, a palavra
o gesto, o dia, a estrada
brotam
das mãos do menino:
estrelas de sangue, esperma e argamassa
sóis de fúria e pranto e alegria
iluminando
o novo horizonte: claro e verdadeiro
como o azul que nasce do ventre da manhã


CONVOCAÇÃO

o fel do agora
amarga
mas é ilusório
as botas esmagam
mas pisam o transitório

o suor roubado durante séculos
o sangue derramado na luta milenar
o pranto chorado na falta de pão
na falta de amor, na escravidão
o grito abafado pelos grilhões traiçoeiros
as grades cruzadas para que ousa amar o irmão quando a Paz é crime
a vida feita de amarra dela mesma

tudo
faz brotar no solo
holocausto luminoso
do escuro passado
fazendo o braço que trabalha
dono da terra
da usina, do arado
e o coração viver do amor
cantando a canção do amanhã libertado
 
Vazio tudo está,
Tudo está vazio,
Para onde corre o mar?
O mar que recebe o rio.
Onde ela estará?
Ela, por quem choro e riu.
O que há... O que há?
Não sei; Quem sabe? Quem viu?
A vida boa... má...
Sempre e sempre, mundo vil,
Maldade há, ali e cá,
Os mais são muitos, dois, dez, mil...
Viver é a obra
Morrer é a meta,
O que mais sobra
Maldade hipocrisia,
O bem não resiste, sossobra.
Vida árida, vaga, fria.
  

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¹ Sabe-se que há muitos poemas e prosas ainda inéditos.



REFERÊNCIAS:

Mário Jorge Poesia que liberta. Disponível em: https://www.facebook.com/MarioJorgePoesiaQueLiberta/posts/546203135440340. Acesso em: 16 de jul. de 2013.