terça-feira, 12 de novembro de 2013

NÚBIA MARQUES: Uma feminista no “Rio dos Siris”.

Por: Allan de Oliveira.
Contato: allantbo@hotmail.com


Fonte da foto: http://academialiterariadevida.blogspot.com.br/p/9-nubia-nascimento-marques.html

Núbia Nascimento Marques nasceu em Aracaju na Rua de Geru em 21 de dezembro de 1927. Filha do senhor Atílio Marques e de Dona Bernardina Rosa do Nascimento Marques. Estudou no Jardim de Infância Augusto Maynard Gomes, fazendo depois o Curso Primário no Educandário Menino Jesus e, posteriormente, estudando o Ginásio no Atheneu Sergipense e, Contabilidade na Escola de Comércio Conselheiro Orlando.

Núbia Marques já escrevia poesia desde a idade de 14 anos e ela teve grande influência de escritores como Augusto Frederico Shimidt, Clarice Lispector e Graciliano Ramos.

Ao completar vinte anos de idade, ela se mudou para o Rio de Janeiro, fazendo por lá o Curso de Belas Artes, trabalhando na Revista Seleções de Reader’s Digest.

No ano de 1948, quando estava no Rio de Janeiro, frequentou a Sociedade Brasileira de Artes Plásticas porque além de poeta e romancista, ela também cultivou do desenho e da pintura.

Quando Núbia Marques retornou a Aracaju, e isso se deu nos anos 50, ela já estava casada, passando a fazer o Curso Superior na área de Serviço Social. Posteriormente, ela fora aprovada em concurso do Estado, passando a lecionar como professora de Literatura Brasileira e Portuguesa. Depois ela teve de se mudar para Salvador e lá exerceu a função de assistente social e ensinando também nessa área. Anos depois, a escritora cursou Mestrado na PUC-SP.

Em 1978, quando Núbia Marques já estava morando em Sergipe, ela já ensinava na Universidade Federal de Sergipe (UFS), e passou a ocupar a cadeira de número 34 na Academia Sergipana de Letras, sendo a primeira mulher a fazer parte dessa instituição de cunho literário.

Núbia Marques considerava a arte de escrever poesia como um vício, e com simplicidade, seus versos, para ela, eram fracos e sem conteúdos.

Foi uma escritora que demonstrava certa rebeldia e espírito lutador. Uma ativista política atuante em comunidades que lutou em prol dos direitos das mulheres e da igualdade entre os gêneros, bem como participante do movimento das “Diretas Já” que ocorreu no ano de 1985 defendendo a anistia em Sergipe durante o Regime Militar no Brasil.


Núbia Marques faleceu em 26 de agosto de 1999, vítima de infarto culminante após sair do banho. Seu velório fora realizado no dia seguinte na Academia Sergipana de Letras.

OBRAS¹

Poesias:

* Um ponto e duas divergentes (1959);

* Dimensões poéticas (1961);

* Baladas do Inútil silêncio (1965) – [Com Gizelda Morais e Carmelita].

* Máquinas e Lírios (1971);

* Geometria do Abandono (1975);

* Verdeoutuno (1982).

* Todo Caminho é um Enigma (1989);

* Poemas Transatlânticos (1997);

Contos:

* Dente na Pele (1986) – [Também foi traduzido para o holandês].

Crônicas:

* Sinuosas em Carne e Osso (1962) – [Escrevia para jornais e emissoras de rádio locais];

Folclore:

* Pesquisa de Fatos Folclóricos I. Volume II – contos infantis (1973);

* Aspectos do Folclore em Sergipe [coordenação e texto] – (1996);

* O Luso, o Lúdico e o Perene (lançamento póstumo) – (1999).

Ensaios e estudos:

* João Ribeiro Poeta (1983) – [trabalho premiado];

* A Presença de Fernando Pessoa (1986);

* Hegemonia Cultural na Escola (1987);

* João Ribeiro sempre (1996);

* Caminhos e Atalhos (1997) [Álbum histórico];

* Do Campo à Metrópole – grupo G. Barbosa (1999) [Obra Póstuma].

Romances:

* Gráfica Tietê (1967);

* Berço de Angústia (1980);

* O Passo de Estefânia (1980) – [Com edições traduzidas para o alemão];

* O Sonho e a Sina (1992).

Verbetes:

* Dicionário Bibliográfico de Escritores Brasileiros Contemporâneos - Adrião Neto. (1998);

* Dicionário de Mulheres - Hilda A. Hubner Flores. (1999);

* Dicionário Crítico de Escritoras Brasileiras, Nelly Novaes Coelho. (2001).


NECROSE

Morri tantas vezes em ti
que nem me apercebi da necrose
os túmulos de flores insepultas
eram risos da infância dilacerada
trêmulos risos girassóis outonais.

Morri tantas veze em ti
que nem percebi a necrose
a noite que sempre precede ao nada
tinhas as calcinhas expressões do desamparo
e a única árvore abrigo
era a despedida árvore inatingível

Morri tantas vezes em ti
que nem percebi a necrose
os ventos que embalavam os cemitérios
nem tinham o balanço de brisas silenciosas
nem eram a ventania alucinada
mas os ventos lentos que ninam a morte.

Morri tantas vezes em ti
que nem percebi a necrose
e a desvairada busca do amor
era o réquiem eterno do desencontro.

Fé no Ofício
não sou poeta
do parecer do carimbo
da hora certa
do relógio de ponto
dos trâmites legais
dos acordos
dos aceros
das mornas convivências
poeta oficial

Poeta tem que ser
o passo avesso
o grito o  protesto
o pulso o murro
o monte o traste
a palavra maldita
o desacerto na próxima tocais

Sou poeta que faço
do laço o traço
do cuspe o rastro
do passo o arregaço
do sobejo o farelo
do travo o trevo
do amargo viver
d cada instante
sou poeta
mais nada.

DESTINO

Tenho nos pés mil andadas
initerruptas
malfadadas
tão sem glória
quase sem metas

Tenho o rumo nos pés
malsinados
andando nem sei pra que sóis
andadas desritmadas
quase presas de abandono e solidão

Nos meus pés dorme
um rumo indeterminado
que se esvai em cada pedra
em cada estrada

Tenho nos pés
um rumo indeterminado
que se esvai em cada pedra
em cada estrada

Tenho nos pés um rumo insuspeito
milenar antes das minhas engatinhadas
os seixos
o sargaço
as marisias
são trilhas esparramadas e solícitas

Meus pés nasceram pra buscar auroras
sem eletricidade sincronizada
mas colhendo a pálida luz da manhã
depois de uma jornada silenciosa
pisando as terras sem asfalto
mas a quente argila
que me vai tornar pó.

INCONSEQUÊNCIA

fizeram de mim
simum de auroras
depois perguntaram-me cinicamente
porque diante de tanta luz
tens a noite aninhada no peito

fizeram de mim
pastora que arrebata luz
depois perguntaram-me cinicamente
porque choras diante do caos de estrelas

fizeram de mim criança que nina bonecas
depois perguntaram-me cinicamente
mulher, onde estão os machos de tua conquista

fizeram de mim
tecelã de sonhos
depois perguntaram-me cinicamente
que fazes neste tear sonâmbulo

fizeram de mim
a guardiã da liberdade
com armas de matéria plástica
depois perguntaram cinicamente
porque não defendes os oprimidos

vão todos pra merda
seus filhos da puta

INCOMESURÁVEL

Entre uma palavra e outra há um abismo
e para as grandes decisões múltiplas formas.
Toda palavra que pronuncia tem mil sentidos
e para as justificativas inúmeras expressões.

Se não fossem as dimensões tão relativas
se a palavra do homem tivesse lúcida forma
a impunidade dos caminhos da Ainda Cury
não seriam manchetes nos jornais

Vamos liquidar as cartilhas de ABC
Procuremos a linguagem do amor irredutível
Criemos a palavra dimensional
Ponderável
Precisa
Exata
Indiscutível
Verdadeira
Telepática
Poética.


_______________________________
¹ Além destas obras houve também participações da autora em várias antologias.


REFERÊNCIAS:

Academia Literária da Vida: Núbia Nascimento Marques. Disponível em: <http://academialiterariadevida.blogspot.com.br/p/9-nubia-nascimento-marques.html>. Acesso em: 09 de set. de 2013.

Casa Abrigo Professora Núbia Marques – Quem foi Professora Núbia Marques?. Disponível em: <http://abrigonubia.blogspot.com.br/2010/08/quem-foi-professora-nubia-marques.html>. Acesso em: 09 de set. de 2013.