segunda-feira, 17 de junho de 2013

PEDRO DE CALASANS: "Um sergipano que ultrapassou os limites de Sergipe e do Brasil".


Por: Allan de Oliveira.
Contato: allantbo@hotmail.com



Pedro Luziense de Calasans Bittencourt nasceu num engenho de Santa Luzia em 28 de dezembro de 1836, sendo filho do tenente-coronel José de Calasans e de Dona Carolina Amélia de Calasans. Estudou no Liceu de São Cristóvão, indo à Recife no ano de 1853 para concluir o curso preparatório. Posteriormente, estudou o Curso de Direito na Faculdade de Direito do Recife ao lado de Tobias Barreto e de Castro Alves, sendo o primeiro autor sergipano a estudar no Recife. Foi promotor no município de Estância, deputado no Rio de Janeiro, juiz municipal e deputado no Rio Grande do Sul, além de ter participação jornalística no Recife, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Fez viagens à Alemanha e Bélgica, onde publicou alguns livros, ultrapassando os limites de Sergipe e do Brasil. Ao contrair tuberculose, Pedro de Calasans fora à procura de um clima que ajudasse na cura para sua doença em várias partes do país. Mas, infelizmente, houve um naufrágio em que a tripulação conseguiu se salvar e, somente, ele morrera naufragado no dia 24 de fevereiro de 1874.

Pedro de Calasans escreveu livros de poesias, peças de teatro, crítica literária, e Direito. É considerado poeta ultrarromântico e condoreiro. Além de ser um dos criadores do Condoreirismo.



Bibliografia do autor:

Poesia:

* Páginas Soltas. Recife, 1855.

* Últimas Páginas. Niterói, 1858.

* Ofenísia. Bruxelas, 1864.

* Wiesbade. Leipzing, 1864.

* Camerino. Bahia, 1875.

* A Cascata de Paulafonso. Bahia.

* Ecos da Juventude. 4 vols. s/ data.

* A Rapinada.


                                                        Teatro:

* Uma cena de nossos dias. Leipzing, 1864.


Crítica Literária:

* Esboço crítico-literário.

* Gonçalves Dias. 1856.

* Álvares de Azevedo (A Lira dos 20 anos). 1856.

* Laurindo Rabelo. 1856.

* A. P. Maciel Monteiro. 1856.

* Gonçalves de Magalhães (Suspiros Poéticos e Saudades). 1856.

* Caetano Alves de Souza Filgueiras (Arremedos de Poesia). 1856.

* J. D. R. da Cunha (Cantos e Prantos). 1856.

* Otaviano Rosa. 1857.


À MORTE DE UMA VIRGEM

Qu’eras do céu, não da terra
Bem me o disse o coração.
(F. MOITINHO)

Eco, que outrora repetiste o canto,
Que em meigos sonhos de sutil paixão,
Lábios dourados de celeste encanto
Soltavam rindo nesse rir de então.

Brisas da tarde, que as gentis madeixas
Lhe bafejastes na estação do amor,
Vinde comigo soluçar mil queixas,
Chorar comigo de amargura e dor.

Choremos todos que a inocente virgem
Num sono de anjo para o céu subiu,
Ela era um anjo, foi de Deus origem,
Brilhante estrela que dos céus caiu.

Ela era um anjo, como um anjo expira,
Vai ser a pérola, resplendor de Deus,
Era um acento da afinada lira
Ouvida ao longe modular nos céus.

Como a açucena que no val desponta,
Que a brisa leva num soprar de amor,
A linda virgem para os céus remonta
Sorrindo meiga como rir-se a flor.

E o bardo triste, que a adorou no mundo,
Entregue às mágoas de uma dor sem fim,
Vive isolado num gemer profundo,
Carpindo a ausência, soluçando assim.


MINHA ESPERANÇA

Minha esperança, perdida!
Ai! Pobre de mim que sou!
(B. SAMPAIO)

Minha esperança querida
Para o futuro entretida,
Que mão cruel te apagou?
Foi a da pérfida, impura,
Que outrora (cruel, perjura!)
Em seus braços te afagou?

Amor, meus sonhos, delírios,
Tudo trocado em martírios!...
É triste o viver assim!
Meu sonho de amor perdido,
Meu futuro enegrecido,
Minha esperança!... Ai de mim!

Meu amor tão malfadado,
Pobre amor ludibriado,
Quem tão cedo te esfolhou?
Minha esperança fagueira,
Ai de ti! Quem te murchou?

Quem dissera que um sorrizo,
Que me dava o paraíso
Num sonho vago do amor,
Fora capaz de iludir-me
Mesmo inconsciente a sorrir-me,
Bem como um ósc’lo traidor!

Qu’é do tempo tão ditoso,
Tão belo, tão venturoso
Que a existência me dourou?
Qu’é do sorrir da bonança,
Qu’é do sonho de esperança
Que a minha vida embalou?

Tudo é murcho e desfolhado
Como a florinha do prado
Que o vento lançou no chão!
Derrocam-se os castelos,
Desfeitos jazem – tão belos!
Meus sonhos do coração!


REFERÊNCIA:

LIMA, Jackson da Silva. História da Literatura Sergipana. Vol. II. Fase Romântica. Aracaju, Fundesc, 1986.

JOAQUIM ESTEVES: "O romântico de um único poema"

Por: Allan de Oliveira.
Contato: allantbo@hotmail.com


Pouco se sabe sobre a vida desse autor. Porém, o que há de notícias referentes a ele é que nasceu na Vila de Santa Luzia em 31 de janeiro de 1832 e faleceu de tuberculose em Salvador em 02 de outubro de 1855 com apenas 23 anos de vida. Apaixonou-se por uma prima que prometera sua mão em casamento, mas depois ela resolvera ingressar num convento; fato que fez Joaquim Esteves se constranger muito.

Joaquim Esteves estudou medicina na Bahia e se doutorou em 1853. Trabalhou como redator de um jornal em tempos de faculdade, escreveu teses de doutorado e de medicina, e cultivou do Ultrarromantismo com apenas um único poema de que se tem notícia, “A Noviça”, escrito no número 02 do jornal da faculdade “O Acadêmico” no ano de 1853 que fora publicado, posteriormente, por historiadores da literatura sergipana como Filinto Elísio do Nascimento, Sílvio Romero, e outros.

A NOVIÇA

A dor que lhe há desbotado a cor do rosto,
E o sorriso que lhe roça os lábios
Murcha ledo sorrir nos lábios de outrem.

(G. Dias – Seg. Cant.)

Ei-la prostrada, tão sozinha e triste,
No silêncio do tempo – humilde orando!
Ei-la a rir-se co’os anjos, arroubada,
Um riso só dos lábios; que no peito
Acoita imensa dor, que a mata aos poucos!
Ei-la em pranto “perdão!” clamando virgem,
De um só crime pungisse atroz remorso!
O grosseiro burel seu corpo envolve,
E as tranças tão gentis – vede-as – caíram
Nas lápidas do templo – oh dor! – cortadas!

Quem hoje a conhecera? – Os brandos olhos,
Não lânguidos de amor, porém já mortos,
Semelham lá do céu dous astros belos,
Que negra cerração esconde e apaga!
Os lábios, que tão mágicos, tão róseoas,
Seus mais ternos afetos me contavam,
Os rubros lábios, desbotados hoje,
Já mal sabem sorrir – são flores murchas!
A tez do rosto, que o pudor e o medo
A uma frase de amor tingiam logo
De róseo colorido,
Qual flor mimosa a perecer co’a tarde,
Vai pálida ficando!

Em mudez quase sempre mergulhada,
É-lhe defeso dirigir palavras
Às tristes como elas, que lá gemem
Gemidos do imo peito, amargas queixas
Que dentro de uma cela nascem – morrem!
Só às vezes em coro – aos céus do templo
Sua voz divinal maviosa sobe...
Entre todas se eleva – triste nota
De um anjo a padecer, preso na terra!
Oh! Que somente eu sei quanto ela sofre!...
Jovem donzela, em terno amor ardendo,
Esquecida julgou-se; e vingativa,
Cedendo ao voto insano que fizera,
Hóstia inocente se oferece às aras!
Nova Heloísa – a misturar suspiros
O claustro vai roubar-m’a a mim e ao mundo.

Era tão casta, tão bela
Qual fora a Vestal singela,
Como aquela linda estrela,
Que veio os magos guiar!
Tão pura, tão inocente.
Como o riso que não mente,
Como um ai que brandamente
Andasse doudo a voar!

Amou-me; - mas sempre esquiva,
Foi mimosa sensitiva,
Que se furta fugitiva
Da menina à nívea mão:
Nunca em paga a um meu desejo
Deu-me ao menos um só beijo;
Nunca de animá-la o ensejo
Deu-me a tão viva paixão...

Pois amei-a também
Como nunca amou ninguém,
Com tanto amor como o tem
Ao filho mãe carinhosa!
Eu amei-a com fervor,
Com santo e místico ardor.

E vivemos mui ditosos
Curtos dias bem formosos,
Do futuro descuidosos,
- Que amor não mede o futuro!
Foi-me uma quadra doirada,
Foi serena madrugada,
Foi primavera encantada,
Foi nos céus um viver puro!

Mas tudo mudou-se – trocou-se, meu Deus!
A nossa ventura num mar de agonias;
Eu vivo no mundo, sozinho, saudoso,
No Claustro ela vive – consome seus dias!

Mas tudo mudou-se – trocou-se, meu Deus!
A nossa ventura num mar de agonias;
Eu vivo no mundo, sozinho, saudoso,
No Claustro ela esquece protestos que fez...
Nem lá minha voz pode ir despertá-la.

No Claustro ela encerra nos mudos sepulcros
Esp’ranças que teve – e pudera nutrir!
Seus puros afetos, ardentes, tão santos,
No Claustro não podem, não podem florir!

Tão bela que era, tão cheia de encanto,
Tão triste no pranto, no riso tão leda,
Quanto hoje é mudada! Um dedo de ferro
Mostrou-lhe – coitada – da dor a vereda!

- Virgem! Que negro fado fulminou-te,
Inda róseo botão mimoso e lindo:
Na flor da vida, a des’brochar tão puro!
Mal tentaste mover tímidos passos
No teatro do mundo,
Caiste logo: - criancinha débil,
Que no teto fitando os olhos vivos,
Enquanto folga vendo os arabescos,
Incauta vai... tropeça, e cai... e chora!
- Assim sonhaste ver vasto sudário,
Que amigo ignoto gênio desdobrava
Como céu sobre ti! – Aí traçado
Em místico idioma – “amor” – tu leste!
Aí – “ventura” – em aúreos caracteres
Desenhara hábil mão de um mago sonho!
E – ventura – dizendo, após correste;
E soletrando – amor –, ferveu-lhe o sangue!...
Mas – cega! Não olhaste o abismo horrendo
Que se abria a teus pés! Nem reparaste
Numa mão, semelhante a que lavrara

No festim do Monarca atroz sentença,
Do sudário apagando as aúreas letras,
Impiedosa a escrever – Serás do Claustro!
Ah! Cumpriu-se o presságio! – Lá tu vives,
Lá te esqueceres de amor, de mim, do mundo;
- De mim que sempre estreme, sempre firme,
Nos prazeres, nas penas te acompanho,
Como ao astro do dia a flor que nasce,
E como ele fenece ao vir das trevas!

Teus sonhos doirados, que altiva sonharas,
As tuas venturas, o teu puro amar,
Onde é que hoje existem? Fugiram ligeiros,
Qual foge da praia uma vaga do mar!

Teus níveos vestidos, teus riscos adornos
Por outros tão tristes pudeste trocar?
Capricho!... Os prazeres esquivos te fogem,
Qual foge da praia uma vaga do mar!

Ah! Não penses, donzela, achar venturas
Nessa vida que levas!
Quando à noite, na cela recolhida,
- Em sepulcral silêncio envolto o Claustro -
Tentares elevar a Deus tu’alma,
Uma estranha visão - visão de amores -
 Surgirá de repente e encantadora
Como sonho de virgem!
Ver-me-ás a teus pés, com os olhos lânguidos
Em teus olhos azuis sorvendo gozos,
Repetir-te bem meigo – Amélia! Eu te amo!
E tu, querida ingrata, arrebatada
De um amor ideal, nos meus extremos,
Beberás um prazer divino, imenso!
Mas do templo a mudez solene e triste
Parece condenar-t’o! Na clausura
Se a Deus não se dirige, amor é crime!
Sentirás o remorso, e arrependida
Ao leito arrojarás teu débil corpo;
Mas eu te seguirei: ou venha o sono
Adormecer teus males, tuas dores;
Ou desperta no leito te revolvas,
Minha imagem verás sempre incessante,
Sempre humilde - curvada às tuas plantas -
Dos teus vestidos a beijar-te a barra!
E nem o dia, que sereno surge,
Poderá dissipar-te esse fantasma...
- Inda serei contigo: - ao pé das aras,
Sobre as gélidas lousas dos sepulcros,
Nas horas da oração - ou dia ou noite -
Um momento sequer - não serás livre!
- Nem fora d’outra sorte: - amaste muito;
Fui teu primeiro amo, li-t’o nos olhos,
Conheci-t’o nos risos, e teus lábios,
- Teus lábios que não mentem - m’o disseram.

 Ah! Recorda, donzela, esses momentos,
Esses tempos de outrora, e volta ao mundo!
Por que já não me crês? Que mal te hei feito,
Que já me não escutas? Que mau gênio,
Que demônio soprou-te assim no ouvido
Perjúrios que não fiz? E crer pudeste
Um só instante - um só - que eu te mentisse!
Tu, tão pura, tão meiga, tão formosa,
Que em meus sonhos ardentes de mancebo
Parecias do Éden a hui mais linda
Por Alá enviada a converter-me?!
Que anjo tredo rompeu as doces pazes
De nossas almas jovens, que, simpáticas
No mundo se encontrando,
Cegas - por lei do fado - se aspiravam?
E crer pudeste, Amélia, que eu mentisse,
Eu mancebo, orgulhoso, e namorado,
Cujo sonho é somente amor e glória!
Amor?! - tomei-lhe a taça; mas meus lábios
Nem sequer lhe tocaram! - Tu, tirania,
Tu que m’a tinhas dado, infantes ambos,
Tiraste-m’a das mãos? – Amor e glória
Onde achá-los sem ti? Como alcançá-los,
Se tu, fanal brilhante que resplendes
No meu céu de ilusões - único e vivo -,  
Assim cruel me foges?
Oh! Não desejas ver-me - ativo bardo
Erguido sobre um novo Capitólio,
Deixar que me laureie a fronte augusta
Não digo Roma só - mas todo o mundo?
Não queres de lá, co’um só aceno,
Emudecendo as turbas,
Com soberana voz exclame: Amélia!
E - Amélia - repetindo vão submissos
- Ecos do bardo - as multidões pasmadas?
Ai! Se o desejas, não vaciles, volta!
Sem ti, amor e glória são fantasmas,
Que mal em sonho vejo; só contigo
Posso ter alma e lira, amor e glória.
Não! Não crê no perjúrio: alma de vate
Nunca mancha a traição.
Sempre teu - Sempre - fui: não me desdenhes
Este férvido amor. De novo assina
O tratado de paz, e deixa o Claustro!

Inda é tempo, noviça, sê ditosa!
Vem gozar nos meus braços dos teus sonhos
A casta realidade: vem, formosa,
O que é vida aprender num beijo ardente,
Num amplexo de amigo.

Não profiras o voto! A voz tolhida
Expire-te nas fauces, quando o tentes!
Primeiro do que Deus fui teu esposo;
Ele mesmo conhece os meus direitos;
Ouviu teu juramento – abençoou-o:
Que rompas não lhe apraz a fé jurada:
Nem quer p’ra si a noiva, que espontânea,
Por voto também santo, era já minha.

Eia! Espera-te o mundo com sorrisos,
Deixa, virgem, o Claustro; - olha o futuro...
Não vês um paraíso? - Ah! Nós somente
Somos querida Amélia,
Seus únicos ditosos habitantes:
Vem! Vem depressa comigo tomar posse
Desse oásis feliz, que amor nos abre:
Aí - posto a teus pés - serei poeta,
E tu, donosa noiva, o casto arcanjo
Da minha inspiração! - Ah! Vem Amélia,
É vontade do céu, - e amor nos chama!



REFERÊNCIA:

LIMA, Jackson da Silva. História da Literatura Sergipana. Vol. II. Fase Romântica. Aracaju, Fundesc, 1986.

Noite da Poesia Moderna de 1929 em Aracaju / SE

Cinema Guarany (Fonte da foto: http://aracajuantigga.blogspot.com.br/2010/05/cinemas-de-aracaju.html ) Por: Allan de Oliveira Con...