sábado, 1 de outubro de 2016

FATOS DO COTIDIANO NA LITERATURA CRISTÃ DE ANTONIO MENROD


Recentemente o escritor sergipano Antonio Menrod que mora no Rio de Janeiro lançou duas obras, sendo elas concepções de uma imaginação e lições de missionariedade.

A obra concepções de uma imaginação está composta por duas peças teatrais, “O Novelista” e “Canções de Guerra”, mais a sinopse de uma novela televisiva chamada “Memória da Pele”. O cenário das histórias é o Rio de Janeiro. E esse livro foi premiado no concurso Prêmio Palavrador de Teatro.

A peça que abre o livro concepções de uma imaginação é um monólogo e conta sobre o novelista Abner Gouveia que por vinte anos trabalhou como roteirista colaborador e tem como sonho se tornar um roteirista titular de novelas da TV, e o cenário é a quitinete do próprio personagem com referência a personagens bíblicos (característica do próprio autor).

A história se inicia quando Abner Gouveia retornava do velório do titular de uma novela das 21h “Memória da Pele”, Rodney Câmara, e o primeiro recebe um telefonema com a notícia de que se tornará o titular por causa da morte do outro. O personagem central vê seu sonho se tornando realidade, mas, ele passa a se sentir culpado pela morte de Rodney Câmara por ter recorrido aos rituais de feitiçaria para concretizar o seu sonho. Para tanto, o personagem passa a se lamentar diante do quadro da falecida mãe.

Há toques de humor modernos presentes nessa primeira peça de O Novelista como vemos em seguida:

“ABNER GOUVEIA – (Após soltar a fumaça do charuto pela boca) Mamãe, já sei! É isso que farei para recompensar todo o seu sacrifício de puta, num lupanar de Copacabana, para que eu tivesse a melhor formação acadêmica. (...) É preciso que todos saibam que graças a buceta da minha mãe, eu cheguei ao horário nobre de televisão brasileira como autor titular de uma novela”. (MENROD, p. 29)

E também mais toques de humor são vistos nestes outros trechos:

           “Um bom autor de novela, no mínimo, ele tem que ser mother fucker. E eu sou, literalmente, um filho da puta. (Pausa) Porque não é para qualquer um grudar a bunda. (Pega a cadeira, a traz para o centro do palco e senta) Grudar a bunda mais de quinze horas por dia nesta cadeira e escrever quarenta laudas, todos os dias, quer chova ou faça sol. (...) Haja bunda! A bunda do novelista fica achatada... (...) e ainda por cima ter enorme sucesso de audiência, tem que ser boa “pra caralho”.”. (MENROD, p. 30 e seg.)

Ainda na peça O Novelista são encontradas palavras estrangeiras que dão elegância ao texto como: ma chérie, know-how, mise-em-scène, quelle mervcille, trending topics, s’il vous, high society, Darling... Bem como palavrões em inglês: shit, motherfucker, fucking great. Uma forma técnica de unir o clássico ao moderno.

A próxima peça, Canções de Guerra, se passa no ano de 1981 em fins da Ditadura Militar e conta sobre uma professora de música chamada Clarissa que ao sair do trabalho foi levada por agentes do DOI-CODI (Centro de Operações de Informações do Centro de Defesa Interna) para ser interrogada. O cenário é uma sala de interrogações e Clarissa é interrogada por um tenente-coronel que a interroga por ela ter usado em sala de aula músicas de Chico Buarque e de Caetano Veloso, músicas que foram consideradas em oposição ao Regime Militar, e também por ela ter feito o prefácio de um livro que foi censurado. A professora sofre tortura física e psicológica, e é estuprada, além de outras tragédias que ocorrem ao percurso da história. Um detalhe importante nessa peça é a metáfora que o autor criou com a gatinha da professora chamada Esperança como podemos ver neste trecho abaixo:

“PROFESSORA MAESTRINA CLARISSA – (Com Esperança nos braços) Esperança... Esperança... Não me deixe, não vá embora, Esperança! Ai, meu Deus, minha Esperança está morta. A centelha da minha vida se apagou”. (MENROD, p. 64)

Quanto à sinopse da novela Memória da Pele é contado sobre uma presidiária chamada Ercília Cruz que deu a luz ao filho na penitenciária e por não ter família o bebê ao completar dois anos de idade foi entregue para adoção. A única lembrança que Ercília tem do filho é uma tatuagem dele no braço e ao sair da prisão ela lutará para reencontrar o filho. Ao reencontrá-lo o filho se tornou um ambicioso, metido a Bom Vivant, e Ercília Cruz irá trabalhar na casa dele como doméstica, sem revelar sua identidade, receando ser rejeitada pelo mesmo. Nessa sinopse também é contado sobre a origem da personagem central, nascida em Sergipe, que perdeu a família num acidente de ônibus, passando a morar na rua, as dificuldades que sofreu, morando depois num quartinho com um rapaz lavador de carros até engravidar dele e se envolverem com tráfico de entorpecentes.


Já a obra lições de missionariedade é de autoria de Natham Benson e foi traduzida por Antonio Menrod. Trata-se de um livro com ensinamentos cristãos repleto de passagens bíblicas fundamentadas na doutrina do Catolicismo, comentários do autor abaixo das passagens bíblicas, bem como frases de autores clássicos e filósofos como São Tomás de Aquino, George Sand, Mahatma Gandhi, entre outros.

Para conhecer um pouco mais sobre esse autor acesse a postagem Antonio Menrod: "Um autor do nosso tempo" do presente blog que está neste link http://literaturasergipana.blogspot.com.br/2015/01/antonio-menrod-um-autor-do-nosso-tempo.html e também o blog do próprio autor neste outro link http://oratorioantoniomenrod.blogspot.com.br/.



REFERÊNCIAS:

MENROD, Antônio. Concepções de uma imaginação. Rio de Janeiro. Quártica Editora, 2015.

MENROD, Antônio. Lições de Missionariedade. Rio de Janeiro. Quártica Editora, 2015.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

ARARIPE COUTINHO: “Um escritor polêmico”.

Fonte da foto: http://infonet.com.br/noticias/ler.asp?id=104302&titulo=cultura

Por: Allan de Oliveira
Contato: allantbo@hotmail.com

Araripe Coutinho nasceu no Rio de Janeiro a 13 de dezembro de 1968, sendo filho de Moacir dos Santos e Maria de Nazaré Coutinho. Em 1979, o poeta veio residir em Aracaju, conseguindo o título de cidadania sergipana concebidos pela Assembleia Legislativa do Estado de Sergipe e Câmara Municipal Clodomir Silva. Estudou o Curso de Letras, mas abandonou e se dedicou ao jornalismo. Foi um dos fundadores do jornal O Capital, juntamente com a jornalista Ilma Fontes, membro da Academia Sergipana de Letras e do Conselho de Cultura Negra de Sergipe.

Araripe Coutinho chegou a conviver com a escritora Hilda Hilst por um bom tempo em São Paulo e escreveu a peça Eu e Ela que fora apresentada no mesmo Estado. Trabalhou em jornais, como diretor da biblioteca pública Clodomir Silva e diretor da Divisão de Memória Cultural da Secretaria de Cultura, apresentador de um programa de TV, além de também ter ministrado oficinas literárias e consultoria para políticos e empresas. Teve colunas no Jornal da Cidade, Gazeta de Sergipe, Correio de Sergipe, e Infonet.

Seu livro Do abismo do tempo foi premiado pela Secretaria de Estado da Cultura com o Prêmio Santo Souza de Poesia em 2007.

No ano de 2011, esse poeta provocou polêmica devido a umas fotos que tirou seminu no Palácio Olímpio Campos, gerando repercussão na internet e também na televisão brasileira.

Sua poesia é lírica com tendência pós-moderna por ser constituída por versos livres numa construção poética variada. Ora é notada sensualidade, ora espiritualismo, ora angústias e lamentos. Viu a beleza que existe em Aracaju em suas crônicas e humanizou a cidade em meio ao caos.

Araripe Coutinho foi considerado um protetor dos jovens e das pessoas excluídas pela sociedade. Ele faleceu no dia 09 de dezembro de 2014, vítima de enfarte em sua residência.


LIVROS PUBLICADOS¹:

* Amor sem Rosto (1989)
* Asas da Agonia (1981)
* Sede no Escuro (1994)
* Passarador (1997)
* Sal das Tempestades (1999)
* O Demônio que é o Amor (2002)
* Como Alguém que Nunca Esteve Aqui (2005)
* Do Abismo do Tempo (2006)
* Nenhum Coração (2008)
* O Sofrimento da Luz (2009)
* Obra Poética Reunida (2010)

II

Vem, chama-me pelo nome.
Mas vem.
Os portões tão altos de um
Ferrugem de amor (já calcinado).
Vejo Deus na folhagem e é o teu rosto
Teu tórax, teu riso
(quase uma hóstia de fogo me queimando).
Estas tardes todas um incêndio
Algo quebrando as cristaleiras.
O vento rindo e pondo poeira
Nas coisas. Estas tardes todas têm
Sido de espera e furto de Deus.
Tento tocar o que não me foi dado.
Chamo Deus. Grito: Acode-me!
Mas é tu que apareces
E a oração é adaga, desventura, morte.

Vem, amor feito de falo
Mudez – vária. Não descobri
Fome. Desse presságio
Desse demônio
Arcano-vário.

Eu rondo o desamparo.
Preparo os tachos
Dentro deles a imerecida carne.

Sendo vosso o amor
Me despedaço.

In: O Demônio que é o amor.


QUERO DIZER QUE APRENDI MORRENDO

Quero dizer que aprendi morrendo
E que o púrpura-jade
Do teu casaco quase
Empenha o meu vazio de afeto.

Recebe de mim
Aquilo que conduz o nada
Conhecida que sou
Em juntar teus trapos

Para só depois sim
Amarrar o cadarço
Da nossa desolação.

In: Do Abismo do Tempo.


ENTREGA-TE COMO QUEM VAI MORRER...

Entrega-te como quem vai morrer.
E não te distanciarás
Do átrio onde um dia
Viveste o teu triunfo.
A tua morte apenas um pretexto
De não amar. Incansável corpo
Que te visita exausto.
Enfrenta o dentro corroído,
O que não deixa. Devora
E vai construindo ilhas
Como quem passeia por uma
Casa de pássaros. Norteia.
E passa como quem não tem
Mais medo. Estertor redobrado
De agonia.

In: Do Abismo do Tempo.


ABSTENHO-ME

Abstenho-me do soco
Mas ele vem, independentemente
Se me toca o rosto.

A fera do mundo
Enjaula a leveza

E o medo.

Enquanto solto o tigre
Devoras-me.
Ardor de infâncias.

Fatal foi não ter nascido
Adulto.

In: Do Abismo do Tempo.


ARCANO UM

O mundo é semi-réptil
Repetitivo e cáustico.
Quando a criança se agacha
Pega deus com os olhos
E chacoalha o seu destino de porco
E deus nem se importa.
A inocência mata.
Herberto Hélder diz
Que é a delicadeza.
Na casa sem portas
Deus está num ardor
Vendo os homens
Incensando o seu poder
De pai.

O mundo é insensato e absurdo.

Arquiteto de tudo Deus inventou o
Homem:

Uma tarântula movida
Pela fome.

In: Do Abismo do Tempo.

________________________________
¹ De acordo com o que foi pesquisado há uma dúvida com relação ao número de livros publicados, totalizando 11 obras. Neste site http://brasil.revistadelosjaivas.com/index.php/81-o-boemio/general/140-araripe-coutinho-retrato-de-um-artista-multiplo é mostrado que Araripe Coutinho publicou 13 obras poéticas. Caso algum leitor do blog tenha a informação verdadeira irá ajudar muito o desenvolvimento deste blog e socialização da informação. Agradecemos se houver alguém disposto a ajudar. (Nota do editor do blog)


REFERÊNCIAS:

Araripe Coutinho. Disponível em: <http://estoudeolhoemtudo.blogspot.com.br/2012/07/araripe-coutinho-nasceu-no-rio-de.html>. Acesso em: 14 de dez. de 2014.

ARARIPE COUTINHO. Disponível em: <http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_brasis/sergipe/araripe_coutinho.html>. Acesso em: 05 de jan. de 2015.

Araripe Coutinho lança coletânea na OAB. Disponível em: <http://www.infonet.com.br/cultura/ler.asp?id=96558>. Acesso em: 08 de jan. de 2015.

Araripe Coutinho lança Do Abismo do Tempo na AMA. Disponível em: <http://www.infonet.com.br/Cultura/ler.asp?id=50955&titulo=noticias>. Acesso em: 09 de jan. de 2015.

ARARIPE COUTINHO, RETRATO DE UM ARTISTA MÚLTIPLO. Por Eduardo Waack. Disponível em: <http://brasil.revistadelosjaivas.com/index.php/81-o-boemio/general/140-araripe-coutinho-retrato-de-um-artista-multiplo>. Acesso em: 14 de dez. de 2014.

BRASIL, Assis. A Poesia Sergipana no Século XX. Rio de Janeiro. Imago Editora, 1998.
COUTINHO, Araripe. O demônio que é o amor. Sergipe. Editora Sercore, 2002.

COUTINHO, Araripe. Do abismo do tempo. Sergipe. Editora Sercore, 2006.

domingo, 1 de novembro de 2015

STEPHANE LOUREIRO



Por: Allan de Oliveira.
allantbo@hotmail.com

Stephane Gonçalves Loureiro nasceu em 01 de novembro de 1987 em Aracaju, sendo filha de Maria Lúcia de Souza Gonçalves e Ricardo Loureiro Pereira. Tem como profissões a de advogada, consultora jurídica, e jornalista. Nas horas vagas escreve poemas e prosa. É influenciada pela doutrina espírita e pelo regionalismo. Graduada em Direito pela UNIT (Universidade Tiradentes), contribui como colunista e diretora jurídica no Jornal O Povão (http://www.jornalpovao.com.br/) e também escreve poemas em seu blog: http://spleenbyster.blogspot.com.br.

Recentemente lançou o Romance Dor e Redenção cuja estória está focada no perdão como forma de recomeço para a vida humana. No entanto, o livro mostra, além disso. Trata-se de um Romance Espírita cujo enredo conta a história de um casal de advogados, Luciano e Lígia, e o cenário é o próprio Estado de Sergipe. O advogado morre num acidente automobilístico e a narração, a princípio, não é feita de forma cronológica, mas com o uso frequente de flashs, para depois tomar a forma linear, estando focado na solidariedade cristã da doutrina kardecista, uma temática inovadora para autores sergipanos.

O ambiente descrito é fascinante, de acordo com a crença espírita estando repleto de pessoas vivas (encarnados) e pessoas mortas (desencarnados) com episódios surpreendentes, mesclando o mundo do além com certo romantismo, visando também o labor dedicado por espíritos de luz que procuram ajudar na evolução espiritual de encarnados e desencarnados, bem como a presença de espíritos maléficos que arquitetam maldades a alguns personagens do livro, alimentados por sentimentos de ódio e de vingança, dando certo clima de suspense à estória. E o desenrolar do Romance conduz a uma aventura surpreendente que leva o leitor a um ambiente imaginário.

 “Enquanto falavam, gemidos pavorosos escapavam do túmulo:

- Me tirem daqui, eu não aguento mais, os vermes estão me consumindo, socorro! – gritava o infeliz, desesperado.

Bruno, diante do olhar estupefato que Luciano dirigia à lápide, falou:

- Não sei se você sabe, mas quem comete suicídio, como é o caso deste pobre coitado aqui, o Ciro, muitas vezes passa ainda um bom tempo, preso ao corpo. No momento do ato tresloucado, os laços que o prendiam ao vínculo corpóreo não foram totalmente desligados, já que não era a hora do seu desencarne”. (LOUREIRO, p. 44)

“Impressionante como as pessoas perdem tanto tempo, agastando-se por dinheiro, status, glamour – estas paixões levianas e infrutíferas – se todos nós acabamos do mesmo modo que nascemos para esta vida: despidos e igualados. Meu Deus, somos iguais em tudo! Apenas diferencia-nos, um dos outros, o conhecimento adquirido, os valores morais, inalienáveis, que carregamos para esta nova condição”. (LOUREIRO, p. 47)

“Ambos entraram no recinto fracamente iluminado. Era um grande salão, onde se via fileiras de cadeiras ocupadas tanto por encarnados, quanto desencarnados. Luciano deteve o olhar, justamente nestes últimos, que ocupavam assentos que não eram visíveis pelos presentes ainda cativos no invólucro corpóreo.

Assim, sentaram-se os dois amigos bem próximos à mesa onde se daria a reunião e observaram a tudo, atentos.

Havia diversos espíritos presentes no grande salão, ultrapassando o número de encarnados no recinto. Uns apresentavam carantonhas horrorosas, cheias de sofrimento. Alguns choravam, outros, profundamente desequilibrados, ainda gritavam de quando em vez, impropérios desesperados – ao que eram prontamente acalmados pelos colaboradores do local”. (LOUREIRO, p. 53)

“- Eu procurei, por meio de diversas contrariedades e decepções, enfraquecê-lo fisicamente e emocionalmente. O que não foi difícil, porque ele, de qualquer modo, levava uma vida de desregramentos físicos e morais. Nunca dera grande importância à saúde. Aos poucos e continuamente, minei suas defesas psicológicas, assoberbando-o de contrariedades diversas. Passei a assumir o controle da sua vida, por assim dizer, concorrendo para todos os seus objetivos fracassassem. Então, a amargura do dia-a-dia, o desgaste físico dos seus excessos de álcool e fumo e o meu constante e sutil assédio deletério, influenciando-o psiquicamente, enfraqueceram seu organismo de tal modo, e em específico o sistema cardiovascular, ao ponto de provocar em Dietrich um infarto fulminante, o que o fez desencarnar prematuramente! Ele permanecera ainda por longo período preso ao corpo físico, acompanhando sua decomposição”. (LOUREIRO, p. 174 e seg.)

Além disso, no livro também está contida certa denúncia referente ao preconceito em relação às diferenças sociais, buscando mostrar a luta do bem contra o mal. E a autora mesma revela:

“Nunca pretendi que as minhas palavras fossem verdades absolutas em nada. Todavia, tenho desejado ardentemente, em cada um dos meus dias, que as minhas palavras falem a minha verdade e que ela seja de algum modo ouvida e toque o coração das pessoas. E que essa verdade singela, transmita a delicada mensagem do amor, da esperança, da fé no futuro e, sobretudo, do perdão”. (Nota da autora)

Em o jornal O Povão Nº 652 de julho de 2015, a autora diz:

“Quando escrevi “Dor e Redenção”, em meados do ano de 2010, minha primeira empreitada séria no mundo da prosa literária – ainda que, desde muito jovem, tenha me dedicado com afinco ao universo da poesia – procurei aproximar a ficção politicamente incorreta, do sério dilema multimilenar enfrentado pelo ser humano de todos os séculos: o grave desafio do perdão libertador – aquele que alija o espírito sobrecarregado do peso inútil da amargura. O único remédio capaz de liberar o homem para o recomeço e a verdadeira reforma íntima.
De modo que, a publicação deste Romance representa a concretização da minha missão pessoal de fazer das palavras instrumento de auxílio ao próximo e do desejo de quem dedicou-se uma vida inteira ao ofício das palavras, nessa dura saga de colocar os sentimentos no papel (de uma forma ou de outra).
Ainda que não se trate de uma obra autobiográfica – afinal, romance é necessariamente ficção – e sem qualquer intenção de que as ideias delineadas no livro sejam fieis reproduções de qualquer conceito filosófico ou religioso, tenho certeza de que não há como não identificar-se com o drama dos personagens centrais. Afinal, o perdão é universal”.

Quanto aos seus poemas, a autora afirma ter sido influenciada na juventude pela poetisa da Amazônia, Violeta Branca. Começando a escrever poemas aos 11 anos.

O ANIMAL

Com o tempo, o coração se acostuma.
Sobram teorias, lembranças, vestígios.
A velha música exaustivamente repetida,
Deixa de fazer tanto sentido.

O peito não dispara quando toca o telefone
A memória do rosto se desfaz aos poucos.
Esquecem-se promessas.

O cheiro não resiste mais, insolente, na pele.
A cama, desfeita, deixa de ser apenas um lugar vazio.
Lágrimas, de quando em vez, escorrem, sem desespero.

Sem razão, passa-se a olhar em volta.
Outros sorrisos preenchem todos os espaços.
Outros corpos pesam sobre o meu.
Outras carícias despertam o animal.

Repentinamente, desejos são satisfeitos.
Álcool, calor e barulho.
Desvairos alheios e encantadoras incertezas.

Loucura, seduzir convém.
Vazio, esquecer convém.

Olhos fechados.
Silêncio por dentro de tudo.
Não é preciso pensar.

POEMA XXI

Preciso esquecer-me de mim.
Preciso ausentar-me deste peito devastado.
Ando demasiadamente cansado.
Onde, Deus, estará o alento?
É-me possível vencer a dor e camuflar
Esta cicatriz sanguinolenta?

Sim, preciso ser um pouco menos egoísta.
Quem sou para queixar-me de minhas dores
Se tantos outros infelizes do mundo
Ocultam suas feridas e choram copiosamente
Calados?

Deus, arranca-me das garras do egoísmo!
Esta chaga horrenda ostentada pela humanidade,
Mouca encegueirada,
Quando tantas mães anônimas, desesperançadas,
Ouvem impotentes os gritos incontidos de seus famintos infantes!

Devo vestir minha armadura
Empunhar a espada da coragem
E extirpar o desalento
Do seio do mundo.

O único modo de aplacar a dor
Dos sonhos perdidos
É amando aqueles a que Deus
Concedeu provas bem maiores.

É preciso amparar os desgraçados do mundo!
Eis o único modo de obter a felicidade.

Preciso fechar os olhos às minhas amarguras.
Há outros que precisam muito mais que eu
De piedade.

Ster Loureiro
(20/10/08)


OBRA:

Dor e Redenção (2015)


REFERÊNCIAS:

LOUREIRO, Stephane. Dor e Redenção. Aracaju, Infographics, 2015.

http://spleenbyster.blogspot.com.br/. Acesso em: 26 de ago. de 2015.


quinta-feira, 1 de outubro de 2015

JEOVÁ SANTANA

Por: Allan de Oliveira.
allantbo@hotmail.com


Fonte da foto: Inventário de Ranhuras.

Jeová Silva Santana nasceu em Aracaju em 17 de outubro de 1961, sendo filho de José de Santana e Dona Luzinete Silva Santana. É graduado em Letras Vernáculas pela UFS, mestre em Teoria Literária pela Universidade Estadual de Campinas e doutor em Educação pela P.U.C.

Ganhou prêmios literários de Primeiro Lugar em 1984 e 1986 no Concurso de Literatura da Universidade Federal de Sergipe, bem como no I e II Concurso de Poesia pela Secretaria Municipal de Cultura do Estado de Sergipe em 1986 e 1987 em que os poemas foram classificados entre os dez melhores, bem como o Prêmio Banese de Literatura, além de ter sido homenageado no IX Prêmio Tobias Barreto de Poesia.

Suas influências para escrever se deram, a princípio, no Bairro Santo Antônio e a famosa “Rua da Frente” (Av. Ivo do Prado). Posteriormente, teve como cenário das influências, o metrô de São Paulo.
  
O escritor Jeová Santana escreve prosa e poesia, autor das obras Dentro da Casca, A Ossatura, Inventário de Ranhuras, Poemas Passageiros, além de ter publicações em jornais e revistas.

Trabalha como professor na rede Estadual de Sergipe e na Fundação Universidade Estadual de Alagoas. Apresentava de um programa, “Mestres e Músicas”, na rádio Aperipê FM, além de ter sido colunista em alguns jornais como o antigo “Jornal da Manhã” e “Cinform”.


OBRAS:

Contos:

Dentro da Casca (1993)

A Ossatura (2002)

Inventário de Ranhuras (2006)

Poemas:

Poemas Passageiros (2011)
  

UM AMOR NO MARCOS FREIRE III

Sábado, quase oito da noite, terminal do D.I.A. Maior galera esperando o 030. Ela, de lado. Ele com o menino mais novo escanchando no braço. O mais velho fica beirando. Pintou a bronca: “Acha pouco eu com esse peso todo e você ainda vem se encostar!”. Ela não disse nada. O ônibus chegou. Pela demora, teve até aplausos. Empurra-empurra na porta traseira. Uma gritou: “Como vou subir com vocês me apertando?”. Na hora da partida soa o “para, para!”. Uma velhinha diz que pegou errado e desce falando “sangue de Jesus tem poder!”. Finalmente a caminho. Um guri em cada colo. Visitar a sogra, esse suplício. No percurso algumas imagens: quatro funcionários de uma funerária matando uma pizza no capô do carro. Uns guris cheirando cola numa boa. Uma maluca dançando sozinha num bar. Uma gorda metendo o dedo na cara de um casal. Um velho com um buquê. Um cachorro com três pernas. Um bando de “tudo-é-pecado”, com suas saias longas, saindo da Igreja Remanescente Lírio do Vale. Um engravatado, num carrão massa, saindo do beco da maconha. Uns caras jogando futevôlei. Boas vidas!

De manhã, ela estendeu o braço e encontrou o vazio. Na mesa da sala, o bilhete: “Tô caindo fora. Você é muito longe!”.

Antes assim, do que fazer como um da outra rua, que encheu de pregos de madeira para ser maior o estrago na cara da infeliz. Toda pinicada! Um trabalhão pros caras do IML.

In: Inventário de Ranhuras (2006)


CERTAS PALAVRAS

Palavras duras

duram na memória

Seu talho é fundo

qual faca no peixe

Palavras duras

ferem sem piedade

Até os poetas

lidam mal com elas

Palavras duras

o vento não leva

Palavras escritas

doem na vista

Palavras duras

devem ficar no cofre

O preço da desdita

só sabe quem sofre

Palavras duras

em ouças delicadas

São tão doídas

feito marradas

Palavras duras

não têm medidas

Ditas de chofre

desmantelam vidas

In: Poemas Passageiros (2011)


REFERÊNCIAS:

BIOGRAFIA - ESCRITOR SERGIPANO JEOVÁ SANTANA.

POESIA SERGIPANA - Brasília, 1988 - Antologia org. por José Olyntho e Márcia Maria.

SANTANA, Jeová. Inventário de Ranhuras. Brasília. LGE Editora, 2006.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

SANTO SOUZA: Um poeta órfico em Sergipe ¹


(Foto: Acervo pessoal da Família Santo Souza)



INTRODUÇÃO

O presente trabalho pretende direcionar os acadêmicos do Curso de Letras sobre a importância de resgatar a cultura sergipana através da valorização de poetas consagrados em nosso Estado a fim de conhecer suas obras e a relevância das mesmas para a nossa cultura.

O trabalho foi dividido em três partes: a primeira refere-se a uma pesquisa de campo realizada na Academia Sergipana de Letras; a segunda destina-se a entrevista com o poeta Santos Souza e por fim pesquisas bibliográficas. A pesquisa de campo teve como colaborador Dr. Pascoal, advogado e acadêmico da citada instituição que nos proporcionou conhecer sobre importantes informações a respeito do poeta Santo Souza, sua contribuição para a academia sergipana de letras e alguns segredos de suas obras.

A segunda parte do trabalho foi realizada na tarde de 01 de junho de 2013, onde grupo compareceu à residência do poeta Santo Souza, sendo coordenado por sua neta Ilmara Cristina Souza, jornalista e também acadêmica da Academia Sergipana de Letras que nos dera importantes informações nos proporcionando uma maior abrangência a este trabalho.

O poeta pouco disposto, embora muito lúcido, nos recebeu com uma imensa alegria. Era possível perceber no momento de sua fala o lacrimejar dos olhos por está diante de jovens dispostos a conhecer um pouco da cultura do seu Estado. No primeiro momento o poeta tímido falou sobre sua infância, seus trabalhos e a indignação em perceber o grande número de crianças que não são escolarizadas e a falta de apoio dos governantes aos que buscam preservar a cultura, logo depois falou sobre suas obras, seus prêmios, seus amigos, seus amores e recitou alguns poemas.

A terceira parte foi destinada as pesquisas bibliográficas que nos favoreceu algumas informações contidas em suas obras, as críticas destinadas a esse autor, a relevância do mesmo fora do Estado, a sua contribuição para a literatura brasileira e o trabalho de outros autores que teve como referência o poeta, Santos Souza.

SANTO SOUZA – BIOGRAFIA

José dos Santos Souza nasceu em 27 de janeiro de 1919 no município de Riachuelo no Estado de Sergipe. Filho da arrumadeira, Dona Hermínia “Filhinha”, uma mãe solteira e descendente de escravos, que deu a luz a ele na casa dos patrões.

Com seis anos de idade, Santo Souza começou a trabalhar na área de farmácia.

Estudou até a 3ª série, se tornando um autodidata com um vasto conhecimento tais como aritmética, história, psicologia, esoterismo, línguas como latim, hebraico, grego, etc, procurando estudar sobre tudo.

É considerado um dos maiores poetas do Estado de Sergipe e do país e suas influências literárias, segundo ele, não tem influências diretas de coisa alguma. Sua cultura se concretizou através da descoberta sobre a cultura de vários países, principalmente, a Grécia.

Para ele a poesia é algo que não pode ser explicada por ela nascer com o indivíduo. Essa sua afirmação se dá pelo fato dele ter começado a escrever pequenos versos com 10 anos de idade com a pouca instrução que tinha.

Santo Souza residiu em Riachuelo até os 17 anos trabalhando em farmácia, e em Aracaju, continuando a trabalhar na área onde aprendeu a manipular medicamentos com o mesmo dom de produção de poemas.

Aos 15 anos estudou música, e por ter sido expert em aritmética, aprendeu a tocar em três meses, compondo para clarineta algumas valsas para a namorada.

O poeta conheceu diretamente importantes poetas brasileiros como Mário de Andrade e Carlos Drummond de Andrade. É membro da Academia Sergipana de Letras, ocupando a cadeira de número 03, cujo patrono é Fausto de Aguiar Cardoso, e o fundador é Cleômedes Campos de Oliveira. Foi também membro efetivo da Associação Sergipana de Imprensa, e Membro Correspondente da Academia Paulista de Letras.

Entre os poetas sergipanos, Santo Souza é o poeta com maior número de obras e sua poesia é fundamentada no orfismo, corrente que trata de temas sacros, o bem e o mal contidos na natureza humana. Através dessa corrente, percebe-se que sua poesia busca mostrar as condições humanas, as divindades e os heróis mitológicos, criando, assim, um elo entre o passado e o presente em que o poeta se torna um intérprete do futuro.

No Brasil houve poucos seguidores do Orfismo, e, pelo que se sabe, além do poeta em estudo, houve também o poeta Cyro Pimentel do Estado de São Paulo.

Jackson da Silva Lima, importante historiador da literatura sergipana, considera a poesia de Santo Souza como filosófica, comparando-o a importantes escritores como Fernando Pessoa, Rilke, Valéry, Eliot, buscando dá uma visão sobre o homem através dos tempos e da história.

As obras de Santo Souza foram lançadas, principalmente, pelo Estado de Sergipe. E através de José Augusto Garcez, criador do Movimento Cultural de Sergipe, este se tornou o encarregado de distribuir seus livros pelo Brasil, tornando-o conhecido, especialmente em São Paulo.

A primeira obra de Santo Souza, Cidade Subterrânea, lançada no ano de 1953, fora muito bem recebida por um grande crítico literário da época, Luís da Câmara Cascudo, que inclusive, produziu o seu prefácio.

Durante o Regime Militar a obra Pássaro de Pedra e Sono fora censurada e o livro Decreto Lei Nº 13 que haveria um lançamento na Bahia não pôde ser realizado por conter ideias subversivas. Mas, felizmente, não houve problemas maiores com o escritor.

Santo Souza recebeu inúmeras condecorações e premiações pelo Estado de Sergipe, e em dezembro de 1995, ele ganhou um prêmio literário pela APCA (Associação Paulista de Críticos e Arte).

Através de informações coletadas na obra A Construção do Espanto, décimo segundo livro do autor, lançado no ano de 1998, no capítulo “Opiniões sobre o autor”, que trata da análise das principais obras de Santo Souza, além de vários comentários que o elogiam, fora notado alguns detalhes quanto suas obras. Esses detalhes são referentes, principalmente, às obras, Cidade Subterrânea e Ode Órfica.

Em Cidade Subterrânea, de acordo com Luís da Câmara Cascudo em seu prefácio, revela que na obra está contida a ideia de maldições divinas, vividas por uma sociedade que sofre um cataclisma, mas que aguarda por esperanças.

Ode Órfica, quatro livro do autor, considerado o principal, e lançado em 1956, de acordo com comentário de Sérgio Millet, considera a obra como uma meditação sobre os mistérios da vida, bem como a desilusão dos homens. Nelson de Araújo reforça a ideia, considerando Ode Órfica como o canto moderno dos homens.

De acordo com Luís Antônio Barreto no livro A Construção do Espanto, sua obra está dirigida para questionamentos essenciais da vida humana, retratando um pouco o nordeste, o canto do povo sem destino, o grito do negro escravo. O crítico sergipano ainda o considera como um poeta da cosmovisão, espécie de mediador entre o céu e a terra, e sua obra A Construção do Espanto pode ser considerada como sendo um desfecho das demais obras por está sendo refletida a aventura humana entre deuses, demônios e presságios.

Hoje Santo Souza reside na capital de Sergipe, Aracaju, tendo 94 anos, um pouco debilitado, que o fez encerrar com suas atividades artísticas para se dedicar, exclusivamente, à sua família e à leitura de jornais, revistas e livros.

Ao perguntar a ele o motivo pelo qual não mais escreve, ele afirma que foram os deuses que o mandaram parar.

A grande importância desse poeta que não pode ser esquecido deu ao município de Riachuelo uma escola que leva seu nome, Escola Municipal Santo Souza, bem como a obra Deus Ensanguentado de 2008, que houve versão em espanhol, e um livro em linguagem simples que ajuda a compreender seus poemas, Esboço para uma análise do significado da obra poética de Santo Souza, da escritora Gizelda Morais.

O presente texto se finaliza com uma importante citação de Luiz Antonio Barreto contida na obra A Construção do Espanto: “Santo Souza é um poeta de Sergipe, mas também o é do Brasil e da língua, com sua obra órfica, mas, também, com a vastidão do toque cotidiano, da vida, do ser, da beleza e da reflexão diante do mundo pulsante de todos os dias, como se a poesia fosse uma crônica, a inventar e reinventar a realidade”. (SOUZA p. 129)

OBRAS:

·        Cidade Subterrânea (1953) (com prefácio de Câmara Cascudo)

·        Caderno de Elegias (1954)

·        Relíquias (1955)

·        Ode Órfica (1956)

·        Pássaro de Pedra e Sono (1964)

·        Oito Poemas Densos (1964)

·        Concerto e Arquitetura (1974)

·        Pentáculo do Medo (1980)

·        A Ode e o Medo (1988)

·        Obra Escolhida (1989)

·        Âncoras de Arco (1994)

·        A Construção do Espanto (1998)

·        Rosa de Fogo e Lágrima (2004)

·        Réquiem para Orféu (2005)

·        Deus Ensanguentado (2008)

·        Crepúsculo de Esplendores (2010)


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_brasis/sergipe/santos_souza.html

http://pt.wikipedia.org/wiki/Santo_Souza

PROJETO SANTO SOUZA: um poeta órfico. Produção de Ilmara Cristina, Gleydiomar Souza, e Alessandra Gama. Orientado por Edilson Moura. Sergipe, 1998. Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=wZm4-fnaFDY>. Acesso em: 01 jun. 2013.

SOUZA, Santo. A Construção do Espanto. Aracaju. Sociedade Editorial de Sergipe, 1998.



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¹ Trabalho apresentado pelos acadêmicos, Allan Tenório Bastos de Oliveira, Corália Cirilo Santos, Edione Oliveira, Gicélia Souza, Géssica Ramiro, Márcia Mendes, e Vanessa Reis, do Curso de Letras-Português da Faculdade São Luís de França, como requisito para avaliação da disciplina Optativa II – Expoentes da Literatura Sergipana, ministrada pelo Prof. José Costa Almeida.